11/08/2011
Notícia publicada no site Última Instância com comentários da Dra. Andressa Barros
No dia do advogado, especialistas comentam desafios da carreira

Aprofundar o conhecimento sobre o direito e se atualizar. Essa é a recomendação unânime de especialistas ouvidos pela reportagem de Última Instância nesta quinta-feira (11/8), quando se comemora o dia do advogado e a lei de criação dos cursos jurídicos no Brasil. Com o aumento do número de profissionais no mercado, advogados que não tem boa formação jurídica e atualizações terão poucas chances de trabalhar.

O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) seccional Rio de Janeiro Wadih Damous destacou que a advocacia é uma profissão essencial à sociedade brasileira. “Com a criação dos cursos de Direito e a regulamentação na década de 30, a profissão cresceu e o mercado de trabalho se desenvolveu”, ressaltou. “Hoje surgiram novas oportunidades”, diz.

Apesar do crescente número de advogados no país, Damous explica que quem quer se tornar advogado precisa cogitar especializações em áreas novas, como direito ambiental, direito digital e relações internacionais. “As áreas tradicionais como a trabalhista estão saturadas mesmo”, destaca.

O presidente Arystóbulo de Oliveira Freitas da Aasp (Associação dos Advogados de São Paulo) afirma que a advocacia tem o que comemorar. “Conseguimos consolidar o Estado de Direito e hoje podemos lutar contra os abusos cometidos contra o cidadão”, ressalta.

Entre os ganhos para a carreira, Freitas destaca também as evoluções tecnológicas. “É muito improvável que um advogado consiga trabalhar sem um computador”, observa. O presidente da Aasp diz ainda que o advogado precisa estar muito informado. “Um dos maiores desafios é que o cliente exige que o advogado esteja bem informado sobre o processo”, aponta.

O advogado José Horácio Halfeld Rezende Ribeiro, diretor de comunicações do Iasp (Instituto dos Advogados de São Paulo) afirma que a advocacia tem novos desafios com a informatização do processo. Segundo ele, “o processo eletrônico vai proporcionar agilidade, transparência na informação e na gestão do Judicário. O que vai mudar muito a relação com o cliente”.

Para os que dizem que o mercado está saturado, Ribeiro aponta áreas promissoras para se trabalhar as novas vias de solução de conflito. “A conciliação, mediação e arbitragem são áreas com demanda de profissionais qualificados”, aponta.

Clientes curiosos
A advogada Andressa Barros, sócia do Fragata e Antunes Advogados especialista direito do consumidor e direito civil se diz otimista com a profissão, mas alerta que o advogado precisa estar a frente do cliente. “Estamos vivendo uma nova fase no direito do consumidor, na qual os clientes têm acesso à informação de forma ampla e disponível. Isso faz com que o advogado interaja mais com a parte”, explica.

A especialista conta que os clientes têm acesso ao processo pela internet e a cada movimentação ligam para o advogado perguntando o que está acontecendo. “A confiança que o cliente depositava no advogado não é mais a mesma”, fala.

Ela explica que o advogado era o conhecedor do direito, mas esse conhecimento foi pulverizado. “O autor não precisa de advogado para ingressar com um processo nos Juizados Especiais nas causas de até 20 salários mínimos então o trabalho do advogado acaba não sendo tão valorizado”, lamenta.

Segundo Andressa, a má formação dos profissionais contribui para a desvalorização da profissão. “Em algumas situações acabam ocorrendo aberrações jurídicas, como advogados que acabam produzindo demandas para poder atuar em vários casos, com isso acabam infringindo o Estatuto com a captação indevida de clientela”, assevera.

Para a advogada, a melhora na carreira só depende dos profissionais, que precisam se aprimorar para encontrar soluções jurídicas dos problemas “seja por acordo ou ação na defesa dos interesses dos clientes, mas com conhecimento dos fundamentos do direito”.

Período favorável
Os advogados têm a seu favor o momento econômico vivido pelo país, como explica o advogado Everaldo Augusto Cambler, do escritório Arruda Alvim e Thereza Alvim. “Estamos comemorando [o dia do advogado] com uma impressão muito positiva já que a economia está aquecida e os profissionais são chamados para respaldar os negócios no mercado imobiliário”, diz.

Clamber, que atua no contencioso, afirma que advogados de todas as áreas são requisitados. Mas, os com especialidade em tributário, imobiliário e empresarial tem mais espaço para trabalhar. E pondera, “permanecem os problemas antigos, em especial, do grande número de novos advogados a cada semestre e da qualidade do ensino jurídico”.

Apesar da data sinalizar festividade, nem sempre há o que se comemorar. “É uma profissão desvalorizada. Há tempos atrás, mais de duas décadas, quando comecei, os advogados eram respeitados e ser advogado era motivo de orgulho”, comenta Sylvia Maria Mendonça do Amaral, sócia do Mendonça do Amaral Advocacia.

A crítica da advogada se deve, em especial, a má formação dos novos profissionais. Segundo dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), divulgados no ano passado, o Brasil tem mais faculdades de Direito do que todos os países no mundo juntos. Existem 1.240 cursos superiores para a formação de advogados em território nacional enquanto no resto do planeta a soma chega a 1.100 universidades.

“Não acho que há o que comemorar. A profissão, como várias outras, está em dificuldade em razão do baixo nível de formação, a concorrência é enorme e a credibilidade, baixa”, afirma Ana Claudia Pastore, superintendente do Caesp (Conselho Arbitral de São Paulo).

“Essa história de num único curso realizar a faculdade e uma especialização no mesmo tempo tem que acabar. Esses cursos só querem dinheiro e não tem nenhuma vinculação, na maioria das vezes, com o conhecimento. Depois, quem sofre é o cliente, que verá seu direito escoar pela vala com um péssimo profissional”, completa Ricardo Pereira de Freitas Guimarães, professor de Direito e Processo do Trabalho da pós-graduação da PUC-SP e sócio do Freitas Guimarães Advogados Associados.